A semana pós-Carnaval trouxe um clima de ressaca para o mercado financeiro, especialmente para quem acompanha de perto os movimentos da Vale. A mineradora, um dos pilares da bolsa brasileira, viu seus ADRs despencarem quase 5% em Nova York enquanto o Brasil curtia a folia. E, ao reabrir as negociações na B3, nesta quarta-feira de cinzas, já acumulava baixa de -2,53%, a pior performance entre as blue chips, fazendo o Ibov flertar com o negativo.
Mas, entre números de balanços e fluxos de capital, o que realmente pesou no humor dos investidores foi uma notícia que vai além dos gráficos, um novo pedido na Justiça que busca o bloqueio de mais de R$ 1,2 bilhão dos recursos da mineradora.
A Vale veio de um quarto trimestre de 2025 com resultados mistos. Apesar de um aumento de 6% na receita líquida e avanços operacionais, como a redução de custos em ferro, cobre e níquel, o lucro líquido atribuído aos acionistas caiu, impactado por ajustes contábeis e outros fatores. Analistas até reconheceram os números como positivos em alguns aspectos, mas o mercado não perdoou, e as ações já vinham sentindo o golpe desde a divulgação do balanço. Some a isso o recesso do Ano Novo Lunar na China, que reduz a demanda por minério de ferro, principal motor da companhia, e o cenário já parecia desafiador.
Mas o verdadeiro baque veio de Minas Gerais. Proprietários da Fazenda do Pires, onde a Mina da Fábrica extravasou rejeitos no fim de janeiro, entraram com um pedido na Justiça solicitando o bloqueio de mais de R$ 1,2 bilhão das contas da Vale. O pedido integra as ações já movidas por órgãos públicos, como o Ministério Público de Minas Gerais e a Advocacia-Geral do Estado, ampliando a pressão judicial por garantias financeiras destinadas à reparação dos danos ambientais recentes.
O objetivo é garantir recursos para reparar danos ambientais causados pelo vazamento, que atingiu o Córrego Água Santa e o Rio Maranhão, um afluente crucial para o abastecimento da região metropolitana de Belo Horizonte. Mais do que isso, a ação também solicita a suspensão total das atividades mineradoras no complexo, argumentando que as estruturas interligadas representam um risco sistêmico. É um eco doloroso de tragédias passadas, como Brumadinho, que ainda paira na memória coletiva.
Esse pedido de bloqueio reacende o debate sobre a responsabilidade ambiental da Vale e o custo que isso pode ter, não só em termos financeiros, mas também de imagem. Investidores sabem que a pressão por reparações e a possibilidade de novas ações judiciais não desaparecem tão cedo. Isso sem falar no impacto psicológico: o vazamento em Ouro Preto ocorreu exatamente sete anos após Brumadinho, um lembrete de que o passado da mineradora ainda pesa.
Além disso, outro episódio ampliou o desconforto dos investidores em torno do caso. Parlamentares da Assembleia Legislativa de Minas Gerais relataram ter sido impedidos de realizar fiscalização na área afetada pelos extravasamentos de rejeitos em Congonhas. A visita tinha como objetivo averiguar as condições das estruturas e a extensão dos danos ambientais. O episódio adiciona uma camada sensível ao cenário, pois em momentos de crise ambiental a transparência costuma ser um ativo estratégico. Qualquer ruído envolvendo fiscalização pública tende a ampliar a percepção de risco regulatório e político, aumentando a cautela dos investidores quanto à possibilidade de novas pressões institucionais ou medidas mais rigorosas sobre as operações.
Trabalhando no momento com mais de -2,88% de baixa, a queda da Vale, portanto, é, acima de tudo, uma história de confiança abalada. O pedido de bloqueio de R$ 1,2 bilhão simboliza um fardo que a mineradora carrega, o de provar que pode crescer sem repetir os erros do passado.

