Sexta-feira, Março 6, 2026
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‘Não tenho ódio dele, perdoo ele’, diz viúva de gari sobre empresário que confessou matá-lo em BH

“Ele teve a opção de não atirar. (Mas) eu não tenho ódio dele, eu perdoo, porque é uma pessoa vazia, ele é fútil. Não tem noção do que fez”. A fala, em tom de desabafo, foi feita por Liliane França, viúva de Laudemir de Souza Fagundes, de 44 anos, gari assassinado durante o trabalho em Belo Horizonte, durante audiência pública que debateu o crime que chocou o País nesta quarta-feira (20/8). Liliane se referia ao assassino confesso, o empresário Renê da Silva Nogueira Júnior, de 47 anos, preso desde o último dia 11.

A viúva de Laudemir se emocionou ao relembrar o dia do crime no auditório da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Ao lado dos deputados da Comissão de Direitos Humanos, ela chorou ao afirmar que a falta que sente do marido é também o motor que a faz lutar por Justiça em nome dos trabalhadores da limpeza urbana. “Eu perdi meu protetor, meu companheiro, a pessoa que cuidava de mim. Deus me emprestou o Lau por mais de cinco anos, e ele está fazendo muita falta”, disse. “Me pego procurando por ele, esperando mensagem… Não volta mais. Morreu fazendo algo que amava”, continuou.

Polícia Civil afirma que investigação é isenta

O coordenador de Comunicação Social da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), Saulo de Tarso Gonçalves da Silva Castro, garantiu que ocorre de forma isenta e imparcial a investigação sobre o empresário Renê da Silva Nogueira Júnior, de 47 anos, assassino confesso do gari Laudemir de Souza Fagundes, e sobre a delegada Ana Paula Lamego Balbino, esposa de Renê e proprietária da arma usada no crime. O representante da polícia, em depoimento, falou sobre as tratativas para a apuração imediata da autoria do crime e destacou os avanços na coleta de provas, que culminaram na confissão de Renê durante interrogatório nessa segunda-feira (18/8).

“O inquérito está muito maduro, avançado, pendendo apenas de alguns laudos para conclusão. Eu tive contato com os delegados e representantes da Corregedoria e posso afirmar que se trata de uma investigação técnica, rigorosa e sustentada por provas. Estamos convictos de que chegamos à autoria do homicídio por motivo fútil, que impossibilitou a defesa da vítima”, disse.

O porta-voz da PCMG reforçou que a delegada Ana Paula Lamego Balbino, esposa de Renê e proprietária da arma usada no assassinado, também está sendo alvo de uma investigação da corregedoria da instituição, de forma, segundo ele, “isenta e imparcial”. “Desde o dia 11 (do crime), a corregedoria agiu de forma imediata, isenta e imparcial. (…) A arma usada no crime hediondo é particular de uma delegada da Polícia Civil. De forma rigorosa, a Corregedoria instaurou inquérito policial e um procedimento disciplinar para apurar as responsabilidades da servidora”, afirmou.

Saulo de Tarso pontuou que a expectativa é de que o indiciamento do empresário seja concluído primeiro, seguido da apuração sobre a delegada: “É bem provável que a primeira resposta da Polícia Civil seja a conclusão do inquérito do investigado, que está preso. Logo em seguida, avançaremos na investigação sobre a responsabilidade da servidora. A depender do que for apurado, ela poderá ser penalizada na esfera administrativa e/ou criminal.”

A audiência na ALMG discutiu as condições de trabalho dos profissionais da limpeza urbana de Belo Horizonte e do estado, cobrando direitos como o adicional de insalubridade, o pagamento correto do adicional de periculosidade e benefícios, incluindo atendimentos de saúde e apoio psicológico. Durante a sua fala, a viúva Liliane reforçou que os colegas de Laudemir estão com medo no trabalho: “O ato de parar o caminhão precisa acontecer e, muitas vezes, nesse momento, esses trabalhadores são xingados, humilhados. As pessoas falam que vão passar por cima, e eles recolhendo o lixo. Existem muitos outros Laudemir por aí, e eles vão continuar limpando a cidade, e precisamos olhar para eles com admiração e respeito”, pediu.

O diretor operacional da Superintendência de Limpeza Urbana de BH, Roberto Alcântara Botelho, afirmou que a prefeitura acompanhou todo o tratamento do caso Laudemir junto à empresa Localix Serviços Ambientais. “Lamentavelmente, quase sempre nossos trabalhadores são xingados e mal compreendidos. A sociedade destila ódio contra aqueles que estão realizando um trabalho essencial para a comunidade. Nos contratos das empresas, todas as normas de segurança devem ser cumpridas, e a prefeitura fiscaliza nesse sentido”, disse Alcântara Botelho. Ao final de sua fala, a deputada Bella Gonçalves (PT) afirmou que solicitará ao Executivo campanhas de saúde e segurança voltadas à categoria.

Já o responsável administrativo da empresa Localix Serviços Ambientais, André César Diniz, afirmou que era amigo íntimo de Laudemir e espera que o ocorrido jogue luz sobre as condições de trabalho dos profissionais de limpeza urbana. “Foi uma injustiça. Algo poderia ter sido feito para evitar essa perda. Era para Laudemir estar conosco. A empresa está contribuindo com tudo o que é possível, e eu falo diariamente com a família. Não queríamos perdê-lo, mas espero que esse caso transforme a limpeza urbana em BH e no País”, falou.

O crime

Na manhã de segunda-feira (11/8), por volta das 9h, houve uma confusão no trânsito no bairro Vista Alegre, região Oeste de Belo Horizonte. Um caminhão de coleta de lixo estava parado quando um carro BYD cinza, vindo na direção contrária, se aproximou. O motorista do carro — apontado como o suspeito — teria sacado uma arma e ameaçado a condutora do caminhão, dizendo que “iria atirar na cara” dela. Logo depois, ele teria atirado contra o gari Laudemir de Souza Fernandes, que estava trabalhando na coleta.

O gari foi atingido na região torácica, próximo às costelas, e socorrido ao Hospital Santa Rita, em Contagem, mas não resistiu aos ferimentos. Após o disparo, o suspeito fugiu no mesmo carro BYD cinza e foi localizado pela polícia na tarde do mesmo dia, enquanto malhava em uma academia de alto padrão no bairro Estoril. Ele foi preso sem oferecer resistência. Conforme relatos das testemunhas, pouco antes de ser atingido, Laudemir teria dito: “Acertou em mim”. Testemunhas que estavam no local do crime afirmaram que o suspeito “saiu tranquilo e com semblante de bravo” após atirar na vítima.

Vídeos mostram passos do empresário após o homicídio

Imagens de câmeras de segurança registraram os passos do empresário momentos após a morte do gari Laudemir. Segundo o delegado Evandro Radaelli, responsável pela investigação do caso, Renê manteve uma rotina “normal” mesmo após o crime.

As imagens mostram o suspeito na sede da empresa em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ele chegou ao local por volta das 10h30 e cumprimentou colegas de trabalho. Cerca de duas horas depois, Renê dirigiu-se à sua residência e, logo após estacionar o carro na garagem do prédio, guardou a arma usada no crime na mochila.

Pouco tempo depois, vestido com camisa branca e shorts azuis — a mesma roupa que usava quando foi preso na academia —, passeou com seus cachorros. O vídeo mostra o empresário conversando ao celular enquanto estava com os pets.

A vítima

A vítima foi identificada como Laudemir de Souza Fernandes, 44 anos, gari da Localix Serviços Ambientais. Colegas e parentes o descrevem como trabalhador, pacífico e dedicado à família. Laudemir deixou esposa, uma filha de 15 anos e enteadas; segundo testemunhas e familiares, era muito querido no trabalho e em casa.

Segundo Ivanildo Gualberto Lopes, sócio-proprietário da Localix, Laudemir tentou apaziguar a situação durante a confusão no trânsito e acabou sendo atingido enquanto trabalhava. “Agora vai estar nas mãos da Justiça e nós iremos acompanhar”, afirmou Ivanildo.

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