Uma ação de fiscalização surpresa no Hospital João XXIII para apurar denúncias de supostos problemas no atendimento do hospital de Pronto Socorro João XXIII, em Belo Horizonte foi realizada nesta quarta-feira (26). A unidade de saúde é alvo de denúncias quanto a superlotação, pacientes espremidos em meio aos corredores, e a demora na realização de cirurgias, especialmente as ortopédicas.
Os problemas seriam reflexo do fechamento temporário para reforma do bloco cirúrgico do Hospital Maria Amélia Lins, que atuava como um parceiro para ‘descongestionar’ o João XXIII, especializado no atendimento de urgência e emergência. Enquanto isso, o Maria Amélia Lins era responsável por tratar os pacientes após acidentes e a realização de cirurgias mais complexas.
A fiscalização foi realizada pelo presidente da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, o deputado estadual Arlen Santiago (Avante), que encontrou no local um cenário completamente diferente do que foi denunciado: sem filas no setor de ortopedia, sem superlotação, e sem macas espalhadas pelos corredores. A reportagem da Itatiaia também acompanhou a inspeção e funcionários em anonimato revelaram o porquê do cenário diferenciado.
“É isso que eles fazem. Pegam os pacientes, vão colocando nas outras enfermarias que têm espaço e o corredor fica vazio. Tem buraco para enfiar o povo lá para dentro, eles vão enfiando. Quando vem alguém de fora (para fiscalização), parece que eles avisam antes e você não vê nada. Tudo limpinho, tudo maravilhoso”, denunciou uma funcionária, que não quis ser identificada.
A ITATIAIA, o presidente da comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), deputado Arlen Santiago (Avante), afirmou que as denúncias são de superlotação, pacientes nos corredores e demora na realização de cirurgias, e estão relacionados ao fechamento temporário para reforma do bloco cirúrgico do Hospital Maria Amélia Lins. O parlamentar disse que irá aprovar uma visita oficial da comissão para comparecer ao local em dias de maior demanda na unidade.
“O que que se fazia: dava-se o primeiro atendimento aqui e mandava pro Maria Amélia Lins. Então o paciente tinha duas cirurgias e agora parece que eles organizaram a nova metodologia em que já faz o tratamento completo aqui, não precisa mais ir fazer uma segunda cirurgia. Isso se confirmando, nós vamos ver que é melhor até pro paciente, porque ele não tem que sair daqui, internar, fazer outra cirurgia, outra anestesia. Vimos aí realmente os corredores vazios. A gente vai voltar aí ou num domingo ou numa segunda-feira”, alegou o deputado, que, apesar das denúncias de deslocamento de passageiros da unidade para esvaziar os corredores, se disse mais tranquilo em ver a situação atual da unidade.
“Hoje o que eu vi aqui deixou bem mais tranquilo do que as conversas que chegam ao corredor da Assembleia de que está um caos. É lógico que tem sempre gente que gosta muito de dizer que está um caos para poder falar mal do governo, mas a gente tem que olhar e conferir”, afirmou.
‘Calmaria fake’
Fabrício Giarola, diretor do Complexo Hospitalar de Urgência, negou que pacientes estariam escondidos no Hospital João 23, “Temos vários leitos vagos dentro das enfermarias, dentro das salas da de urgência”.
Ele explicou que o hospital opera com uma produção que atende à demanda espontânea e que, no momento da visita, encontrava-se no plano verde, de rotina, com o nível mais baixo de pacientes. Giarola também comentou sobre o impacto do fechamento temporário do Hospital Maria Amélia Lins.
“A gente vem demonstrando e em números que, na absorção do Hospital Maria Amélia Lins pelo João XXIII, a produção cirúrgica, taxa de infecção hospitalar, taxa de mortalidade, taxa de reinternação, todos esses números estão sempre melhorando. Então, a vinda do Hospital Maria Amélia Lins para cá não contribuiu negativamente pro funcionamento do João XXIII”.
Além disso, ele explicou a mudança na forma de atendimento: “O Maria Amélia Lins fazia uma cirurgia sequencial do atendimento do trauma. Então a gente está tentando resolver isso tudo aqui no João XXIII, que é uma nova metodologia, um novo método de trabalho.”.
Giarola também mencionou o novo papel do Hospital Maria Amélia Lins: “Está passando por um chamamento público para prestar um novo serviço para a sociedade, para a população mineira, que é um serviço de cirurgias eletivas. Então, ele vai focar para fazer outro tipo de cirurgia que não era feita hoje”.
Paciente denuncia agressão
O cenário de calmaria é questionado por pacientes, que denunciam, inclusive, casos de agressão a uma enfermeira da unidade. Uma mulher relatou que na terça-feira (25), o marido, que está internado aguardando vaga em outro hospital para realizar uma cirurgia ortopédica, teve que intervir na agressão de um outro paciente a uma enfermeira.
“Ontem mesmo teve um ato de violência com ele lá, foi com outro internado que é morador de rua estava agredindo uma enfermeira, ele teve que defender e tudo mais”, afirma. “(O marido) chegou a tomar um soco, mas conseguiu estabilizar o homem para segurar ele. Foi bem pesado mesmo. Fiquei bastante preocupada com ele”.
O que diz o Governo de Minas
Procurada pela Itatiaia, a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), nega que o fechamento do bloco do Hospital Maria Amélia Lins não impactou negativamente no HPS.
Relação entre HMAL e João XXIII
O Hospital Maria Amélia Lins é uma espécie de retaguarda do Hospital João XXIII. As instituições são independentes, porém complementares, garantem fontes no setor de saúde.
O João XXIII é especializado no atendimento de urgência e emergência. Já o HMAL era responsável por tratar os pacientes após acidentes, o que significa a realização de cirurgias mais complexas. Neste cenário, o Maria Amélia Lins atua como um parceiro para ‘descongestionar’ o João XXIII.
Com o fechamento temporário do HMAL, os relatos são de que todos os tipos de casos estariam sendo concentrados no João XXIII. Neste cenário, cirurgias eletivas estariam sendo canceladas para priorizar os procedimentos de urgência.
*Por Rádio Itatiaia