Quase um ano após a morte do gari Laudemir de Souza Fernandes, baleado enquanto trabalhava no bairro Vista Alegre, em Belo Horizonte, o processo contra o empresário Renê da Silva Nogueira Júnior continua sem data para julgamento. O réu permanece preso preventivamente e será levado ao Tribunal do Júri, enquanto a viúva, Liliane França, cobra uma definição e afirma que a demora prolonga o sofrimento da família.
Laudemir foi morto em 11 de agosto de 2025, aos 44 anos. Desde então, segundo Liliane, o luto passou a conviver com recursos, decisões judiciais e uma espera que ainda não tem previsão para terminar.
“É incrível como, no Brasil, as coisas demoram a acontecer. E isso adoece a gente. Essa demora traz doença mental, porque, além de você perder um ente querido, vem toda essa burocracia. A nossa lei tem brechas e eu acredito que ela precisa mudar para que as famílias tenham a certeza de que um crime não ficará impune”, afirmou à DeFato Online.
Renê foi pronunciado pela Justiça em janeiro deste ano, decisão que determinou que o caso seja analisado por jurados. Em 9 de abril, a 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais negou um pedido de habeas corpus apresentado pela defesa e manteve a prisão preventiva. Para Liliane, o envio do caso ao júri trouxe alívio por transferir à sociedade a análise das acusações. O sentimento, porém, ainda é atravessado pela falta de uma data concreta para o julgamento.
“Hoje, o meu grito é para que marquem a data do julgamento do Renê. Esse é o meu pedido, para que a gente possa trabalhar com uma data e saber quando ele vai a júri popular. Eu espero que a nossa Justiça seja justa. O meu Lau já foi, mas existem muitas outras pessoas aqui fora”, declarou.
A passagem do tempo também não diminuiu a presença de Laudemir dentro de casa. Roupas, sapatos e outros objetos permanecem nos mesmos lugares em que foram deixados. Liliane conta que ainda procura pelo companheiro quando precisa resolver problemas cotidianos ou encontrar algo que ele costumava guardar.
Desde o crime, a família passou a buscar acompanhamento e receberam apoio de amigos, do sindicato da categoria e da empresa para a qual Laudemir trabalhava, masa inda sem nenhum apoio financeiro da justiça. Liliane afirma que a exposição pública repentina também interferiu no processo de luto.
“A nossa vida virou uma loucura. A gente não tinha o hábito de tirar muitas fotos e vídeos, porque vivia a nossa vida. De repente, a minha casa ficou cheia de gente. Teve um dia em que fizeram uma filmagem dentro do meu quarto e eu pensei em quantas pessoas estranhas já tinham entrado ali antes. Ninguém. Foi quando percebi como tudo tinha mudado”, relatou.
Em meio à espera pelo julgamento, Liliane passou a dedicar parte da rotina à Casa do Gari, uma organização social sem fins lucrativos voltada ao acolhimento e à valorização dos trabalhadores da limpeza urbana. A organização já reúne parceiros para atendimentos nas áreas de psicologia, orientação jurídica, saúde e odontologia. A proposta também inclui capacitação profissional e auxílio para o acesso a direitos básicos.
A Casa do Gari pretende atuar junto aos trabalhadores nos pontos de apoio, bases operacionais e atividades comunitárias. As demandas, de acordo com Liliane, serão definidas a partir das dificuldades relatadas pela própria categoria, e não apenas por uma visão externa sobre o trabalho.
“Eu precisava fazer alguma coisa para que eles começassem a entender que têm alguém por eles. É uma sementinha que a gente vai plantar e regar até germinar. A Casa do Gari veio para mostrar à sociedade a importância desses trabalhadores, não para mantê-los excluídos da mesma sociedade que eles ajudam a cuidar”, explicou.
Entre os problemas mencionados por ela está a falta de locais adequados para que garis e outros profissionais que passam o dia nas ruas possam usar banheiros, descansar ou receber atendimento e a organização busca justamente dar visibilidade a essas condições e aproximar os trabalhadores de serviços aos quais nem sempre conseguem chegar.
A atuação também mantém viva a memória de Laudemir. Liliane descreve o marido como um homem tranquilo, dedicado à família e orgulhoso da profissão. Dentro de casa, ele dividia tarefas, cuidava das filhas e do neto e evitava discussões. Mesmo tendo experiência em outras atividades, insistia em continuar trabalhando como gari.
“Ele era um cara tão diferente que eu falava que tinha ganhado na Mega-Sena sem nem jogar. Se tinha roupa para lavar, ele lavava. Se tinha vasilha, ele lavava. Ele se preocupava em cuidar de mim, das minhas filhas e do meu neto. Era um bom companheiro, um bom padrasto, um bom vizinho e um bom amigo”, relembrou.
Laudemir participava da coleta de lixo no Vista Alegre, na região Oeste da capital, quando o caminhão da equipe provocou uma retenção momentânea no trânsito. Conforme a denúncia do Ministério Público de Minas Gerais, Renê teria se irritado com a situação, ameaçado a motorista do veículo e efetuado o disparo que atingiu o gari no abdômen.
O trabalhador foi socorrido, mas não resistiu. Renê deixou o local e foi preso horas depois enquanto estava em uma academia no bairro Estoril.
O Ministério Público o denunciou por homicídio triplamente qualificado, ao apontar motivo fútil, perigo comum e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. A denúncia também atribuiu ao empresário os crimes de ameaça, porte ilegal de arma de fogo e fraude processual.
Na decisão de pronúncia, a Justiça determinou que Renê fosse submetido ao júri por homicídio duplamente qualificado e ameaça. A qualificadora de perigo comum foi afastada nessa etapa, mas o Ministério Público recorreu para tentar restabelecê-la.
Durante a investigação, Renê admitiu ter efetuado o disparo, mas posteriormente mudou a versão e passou a negar que tenha matado Laudemir. A defesa alega irregularidades na apuração e questiona elementos reunidos no processo e as acusações serão analisadas pelo Tribunal do Júri.
A arma apontada como utilizada no crime pertencia à esposa de Renê, a delegada Ana Paula Lamego Balbino. A apuração relacionada a ela foi separada do processo principal. Ana Paula também responde a um procedimento administrativo disciplinar na Polícia Civil e permanece afastada das funções por licença médica.
Enquanto o julgamento não é marcado, Renê segue preso e a cobrança da família se concentra em transformar a decisão de levá-lo ao júri em uma data concreta.

